Reforma apostólica .2
Somente são importantes na medida em que deles advêm serviços "razoáveis" (2Co 5.13; 1Co 14.18-19). Kasemann lembra: "O verdadeiro sinal do apóstolo não aparece em manifestações isoladas de força ou em experiências místicas, mas, antes, na continuidade, realizado com bom senso e com caridade, na paciência e na fraqueza."
COMISSÃO DE UM VERDADEIRO APÓSTOLO
1) Moisés é um Protótipo do Apostolado no Antigo Testamento - Em seu comentário sobre Êxodo 3.10, Helmut Frey chama Moisés de primeiro" apóstolo". A primeira missão de Moisés foi ser arquétipo do apóstolo. Deus envia Moisés a Faraó, dizendo: "Eu te envio a Faraó para tirar do Egito os filhos de Israel, meu povo". Frey comenta: "Todo apostolado vem do Senhor, que é a suprema autoridade tanto no céu como também no âmbito da história. Fundamentalmente, todo apostolado leva um endereço duplo, pois é um testemunho da autoridade suprema na área onde as exigências se conflitam. É endereçado:
- às autoridades e aos legisladores que vêem nas exigências da autoridade de Deus um questionamento de sua própria autoridade, e
- à comunidade, que não pode, por si mesma, compreender sua libertação".
2) Dois Aspectos Essenciais do Ministério Apostólico - "Eu te enviarei a Faraó para tirar meu povo… do Egito" - eis a dupla missão de um apóstolo. Representa a soberania de Deus no mundo. Surgem conflitos entre o mensageiro de Deus e aqueles que se julgam donos de todo o poder no mundo, porque não reconhecem a autoridade de Deus no mundo. Por outro lado, o apóstolo representa a Igreja de Cristo neste mundo. Tem a missão de libertar o povo de Deus dos múltiplos laços do poder anticrístico que opera no mundo.
3) Em que Consiste a Real Missão de um Apóstolo - Várias passagens bíblicas nos dizem que o Colégio dos Apóstolos tomou decisões. Nesse contexto (At 15.28), lemos a célebre frase: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós". Portanto, os apóstolos tomavam decisões a respeito da Comunidade de Fé na força do Espírito Santo. 1Coríntios 14.38 nos revela que Paulo tinha autoridade sobre as comunidades gentílicas por ele fundadas, pois afirma que, se alguém não reconhece suas cartas como mandamento do Senhor, tal pessoa não é também reconhecida por Cristo. No capitulo 11 de 1 Coríntios, Paulo dá instruções explícitas sobre a organização do culto, a comunhão e coisas semelhantes. Judas 17 e Apocalipse 21,14 indicam que os apóstolos são representantes do magistério normativo da vida da Igreja. A autoridade e o poder de um apóstolo são de natureza puramente espiritual. Um apóstolo não tem possibilidade alguma de conseguir êxito com os meios usados pelo mundo. Esta forma de ministério apostólico acarretou sérias dificuldades, particularmente em Corinto. Os Coríntios desejavam um líder imponente como os filósofos pagãos ou como os “eminentes apóstolos” judeus (2Co 11.5). Queriam um apóstolo forte, não um fraco. Mas "Deus colocou este tesouro do evangelho em vaso frágil, que é o apóstolo, para mostrar bem claro que o poder: emanado do evangelho vem de Deus e não do homem” (2Co 4.7). Na verdade, a fraqueza humana é um pré-requisito para a ação de Deus em um verdadeiro apóstolo.
4) Os Apóstolos são Vasos Quebrados e Restaurados por Deus - Um relance sobre alguns apóstolos poderia nos dar a impressão de que Deus escolhe pessoas conceituadas e poderosas. Moisés tinha sido educado na corte de Faraó. Paulo foi discípulo do famoso Gamaliel e emissário dos sacerdotes de Jerusalém. Mas, considerando as circunstâncias do chamado divino, fica bem patente que Moisés foi chamado depois de ter sido obrigado a fugir de Faraó e rejeitado por seu próprio povo, quando já não era mais considerado pelos seus. Paulo foi enviado como apóstolo depois de perder todo prestígio junto aos antigos amigos, depois de ser perseguido violentamente pelos sacerdotes, e quando já não podia mais permanecer em Jerusalém. Jesus não enviou os Doze quando ele ainda era o grande profeta da Judéia, mas sim depois de sua morte ignominiosa, depois que eles se haviam trancado em casa por medo dos judeus, depois que tinham sido rejeitados por seu próprio povo e pelos membros de sua religião, e quando ninguém ousava sequer receber um pedaço de pão das mãos deles. Julgo muito importante estes fatos. Certamente, o chamado pessoal à missão apostólica veio muito antes, quando estes homens ainda eram respeitados por seus concidadãos. Mas a verdadeira missão lhes foi conferida somente depois que foi reduzido a nada tudo aquilo que, em circunstâncias normais, teria colaborado para seu prestígio e acesso junto ao povo, de sorte que sua autoridade não se apoiava em força nem influência humanas, mas unicamente no poder de Deus. Paulo, Moisés, os Doze e muitos outros podiam então agir apoiados unicamente na força de Deus. Sua autoridade humana foi destruída. O próprio Paulo escreve que Deus escolheu o que parece loucura aos olhos do mundo, o que é desprezado, o que já não vale mais nada. Foi exatamente isto que Deus escolheu para confundir o que pensa ter valor. E afirma considerar tudo como esterco, em comparação com o sublime chamado de Cristo.
EXISTEM APÓSTOLOS VERDADEIROS HOJE
Questão muito discutida no meio da cristandade hoje, é se ainda é possível haver apóstolos. Muitos comentaristas bíblicos julgam que a missão de apóstolo foi única dos doze, irrepetível, restrita à cristandade primitiva.
1) Quatro Grupos de Apóstolos no Novo Testamento – É fato mais que comprovado pelos estudiosos do Novo Testamento que tanto o ofício como o dom de apóstolo, não ficou restrito aos doze apóstolos comissionados por “Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão” (Hb 3.1c). Senão vejamos:
- Apóstolos de Jerusalém - (os 12 escolhidos por Cristo e Tiago, irmão do Senhor). As condições para seu ministério apostólico são mencionadas em At 1.21s.
- Apóstolos de Antioquia - (Paulo, Barnabé, Silas). Era sua responsabilidade especial supervisionar as Igrejas entre os gentios/pagãos (At 13).
- Apóstolos Locais Entre os Pagãos - como Andrônico e Júnias(Rm 16.7). “…os nossos irmãos são os delegados das Igrejas" (2Co 8.23 ).
- Ministérios Apostólicos Gerais - Timóteo e Tito exerceram ministérios apostólicos, sem nunca serem chamados especificamente de "apóstolos" no Novo Testamento.
2) Somente a Didachê Fala Sobre os Ministérios de Apóstolos Ainda Vivos – Dentre as obras dos líderes da Igreja primitiva, conhecidos como “padres apostólicos”. Mesmo aí, porém, não é bem clara a diferença entre eles e os profetas. Segundo a Didachê, não existem falsos apóstolos, mas somente falsos "profetas", que assumem o ministério de apóstolos por conta própria (2Co 11.13, fala dos falsos apóstolos). Inácio e Policarpo já consideravam os apóstolos como homens do passado, e Eusébio, em sua História da Igreja, chama os evangelistas de continuadores dos apóstolos.
3) Entre os Teólogos Contemporâneos Temos Quatro Opiniões Diversas:
- Os que consideram o ministério apostólico como uma instituição única - para um tempo determinado. Assim, por exemplo, Eduard Schweizer acredita que os apóstolos ocuparam uma posição especial e irrepetível. Escreve: "Pode-se falar de discípulos dos apóstolos, mas não de continuadores do seu ministério”.
- O ministério apostólico não continuou por culpa da Igreja - Esta opinião, defendida por Heinrich Thiersch, diz que o ministério apostólico cessou porque as comunidades não estavam maduras para ele. Como conseqüência, desapareceram também os carismas.
- O ministério apostólico é necessário só em situações particulares - Assim, João Calvino, discutindo Efésios 4.11, escreve: "Destes (cinco ministérios mencionados), só os dois últimos mantêm um cargo ordinário na Igreja: os outros existiram quando o Senhor ressuscitou, no início de seu Reino, e ressurgem quando ele de novo os suscita em ocasiões especiais, exigidas pela permanência dos tempos" (Institutas, IV, 3,4).
- Alguns teólogos argumentam que o ministério apostólico é permanente na Igreja - Watchman Nee distingue entre o apóstolo de Deus (Jesus), os apóstolos de Jesus (os Doze) e os apóstolos do Espírito Santo (Paulo e todos os outros apóstolos). Afirma que, em tempo algum, cessou o apostolado suscitado pelo Espírito Santo. Nesta mesma linha, escreve Ralf Luther: "Cristo não teve só os doze apóstolos. O Novo Testamento, nos apresenta apóstolos em todas as comunidades (Ef 4.11; 1Co12.28), homens capazes de manter vivo na comunidade o relacionamento com Cristo, e também aptos a levá-Io a outros pontos. O ministério apostólico no Novo Testamento não é uma instituição extraordinária, essencial para um determinado tempo, é antes um múnus ordinário, sempre necessário (embora os doze apóstolos tenham um significado todo especial e próprio). Quando não tivermos mais apóstolos, isto é, emissários legítimos, haverá ruptura no relacionamento entre o céu e a terra".
4) Respondendo à Pergunta se Ainda há Apóstolos Hoje - Ralf Luther diz, em Neutestamenti. Worterbuch: "Cristo não teve somente 12 apóstolos. No Novo Testamento, encontramos apóstolos em todas as Igrejas (Ef 4.11; 1Co 12.28), pessoas encarregadas de manter ou de suscitar o relacionamento entre Cristo e suas comunidades. O ministério apostólico no Novo Testamento não é uma função excepcional, necessária somente para certo tempo; é antes um ministério ordinário e sempre necessário (reconhecendo embora que os 12 tinham uma posição e significado únicos). Se não há apóstolos, i. é, se não há alguém comissionado por Deus, com autoridade e poder, então foram cortadas as relações entre o céu e a terra."
De fato, não há passagem alguma do Novo Testamento indicando a necessidade do ministério apostólico somente para os primórdios da Igreja. Ao contrário, na história da Igreja, encontramos sempre de novo, apóstolos comissionados em cada geração da cristandade. Calvino afirma em sua obra Institutas, que Deus suscita apóstolos na medida em que são necessários nas diversas épocas (prout temporum necessitas postulat). Na verdade, em parte alguma o Novo Testamento sugere que o ministério apostólico seja destinado só à primeira geração dos cristãos. Pelo contrário, constantemente na história da Igreja encontramos pessoas que chamamos de apóstolos, porque os reconhecemos tanto com o dom como no ofício apostólico como concedido por Cristo à sua amada Igreja, até que Ele venha.